segunda-feira, 11 de abril de 2011

ALGUNS PROBLEMAS DA CULTURA BRASILEIRA - Leandro Konder

Acultura brasileira era, antes da chegada
dos portugueses, o conjunto extremamente
rico das culturas indígenas, que
logo foram submetidas a um processo de depredação.
A cultura dos recém-chegados não
se abriu a um verdadeiro diálogo com as culturas
dos nativos. A conquista foi extremamente
violenta e a colonização se baseou em métodos
brutais. No entanto, embora vitoriosa, a cultura
dos portugueses foi forçada a se modificar em
decorrência da situação em que se viram na nova
terra, bem diferente da que existia em Portugal.
Os detentores do poder dependiam da Coroa,
isto é, de um comando externo inquestionável.
Mas as ordens que vinham de Lisboa,
dadas por quem não conhecia a situação aqui,
eram inexeqüíveis. Generalizou-se, então, em
face das decisões comunicadas pela matriz, uma
linha de conduta ambígua, que se explicitava
na máxima: ordens devem ser sempre acatadas,
porém nem sempre executadas.
Isso criou uma cultura na qual o Estado
infundia medo (por ser repressor), mas não
respeito (porque quem fosse esperto podia
burlá-lo). A vida cultural – impregnada de
relativismo, de imediatismo – consagrava
padrões excludentes, que se restringiam a uma
ínfima minoria tratavam de reproduzir os padrões
europeus. Uma maneira própria, peculiar,
nossa, de perceber a nossa realidade só
conseguiu começar a se desenvolver no interior
de uma literatura inevitavelmente comprometida
com a imitação de modelos metropolitanos.
É o processo magistralmente analisado
por Antonio Candido em seu estudo clássico
Formação da Literatura Brasileira.
Mestre Antonio Candido sublinha dois momentos
decisivos nesse movimento: o
arcadismo, no século XVIII e o romantismo no
século XIX. E chama atenção para o fato de que
o processo abriu caminho para o aparecimento
do gênio de Machado de Assis, como expressão
da formação da literatura brasileira,
como um “sistema”, como uma “totalidade”.
A nossa cultura e o sistema educacional aqui
montado nasceram banhados na mais extrema
violência. Desde os seus primeiros séculos, a
vida cultural na sociedade colonial, com a conivência
da educação, se viu rudemente
marcada por desigualdades étnicas e raciais,
quer dizer, pela imposição violenta de
uma determinada corrente sobre as outras.
166 Revista Rio de Janeiro, n. 15, jan.-abr. 2005
Literatura e Cultura
As contribuições indígenas e as contribuições
negras foram sufocadas, reprimidas.
Alguns pesquisadores sustentam que cerca
de 90% das línguas e dialetos falados pelos indígenas
desapareceram sem deixar traço. Se
considerarmos quantas experiências humanas
acumuladas são necessárias pra formar um idioma,
poderemos ter uma idéia da gravidade
dessa perda irreversível para o nosso esforço
de conhecermos melhor a diversidade da condição
humana, para o nosso empenho no sentido
de nos compreendermos melhor.
A intolerância etnocêntrica dos brancos,
detentores do poder, mutilou e empurrou para
a clandestinidade também as sabedorias densas
e diferentes dos negros, dos iorubas, dos
gêges, dos hauçás, dos angolas e dos cabindas.
Cada uma dessas culturas tinha revelações importantes
a nos fazer, mas suas vozes foram
abafadas. As identidades daqueles que as
encarnavam foram negadas.
Os mecanismos de exclusão ainda iam além
dessa dupla discriminação e descartavam as
contribuições dos brancos pobres, das numerosas
expressões culturais dos de “baixo”.
Estruturada em torno de uma autodenominada
“elite” – extremamente minguada – a sociedade
foi orientada no sentido de acolher e imitar
padrões culturais que, em princípio, deveriam
legitimar os estreitos círculos privilegiados aos
olhos da Europa de onde provinham.
As conseqüências foram muito deploráveis.
Na medida em que não eram aceitas as
diferenças cultu vada da fecunda cultura
européia deixou de se enriquecer aqui,
dialogicamente, tanto quanto poderia.
A riqueza (a universalidade) de uma cultura
nacional e a eficácia humanizadora da educação
dependem de numerosos fatores, entre
os quais está o aproveitamento da diversidade
interna das expressões culturais dos grupos
que integram a sociedade. Um dos fatores mais
decisivos, com certeza, está na capacidade da
cultura nacional assimilar as experiências humanas
que lhe chegam, de dentro ou de fora,
através dos mais diversos caminhos.
É sintomático que o maior escritor brasileiro
do passado seja um cético. Machado de Assis,
na observação de Roberto Schwarz1 (que
desbravou o caminho aberto por Antonio
Candido), conseguiu perceber e representar
as contradições da nossa sociedade e da nossa
cultura porque era tão cético que não acreditava
muito sequer em sua própria ideologia.
Os intelectuais brasileiros da época do Segundo
Império eram necessariamente receptivos à ideologia
do liberalismo, que brilhava na Europa, em
parte aclarando e em parte ofuscando a realidade
histórica de países industrializados, porém eram
necessariamente levados a combiná-la com o convívio
quotidiano com uma realidade muito diversa,
marcada pela escravidão. A força de Machado de
Assis estava no fato de que ele, sem se opor ao
ideário liberal, não o levava muito a sério. De fato, se
o liberalismo era um conhecimento distorcido em
sua terra de origem, aqui ele era, como diz
Schwarz, uma distorção: uma visão bastante suavizada
de contradições sociais gritantes.
Revista Rio de Janeiro, n. 15, jan.-abr. 2005 167
Alguns problemas da cultura brasileira
No século XX, podem ser constatadas algumas
mudanças importantes e também elementos
de uma continuidade que não deve ser ignorada.
A população cresceu muito, o perfil demográfico
se alterou, passou a haver mais gente nas
cidades do que no campo. A economia cresceu.
O mercado interno se expandiu. Os costumes se
modificaram. Mas, como escreveu Sérgio Buarque
de Holanda em seu estudo Raízes do Brasil,
as transformações na sociedade brasileira, quando
se tornam necessárias, são feitas de “cima”
para “baixo”, sem efetiva participação popular,
para ficarem reduzidas a dimensões que não
acarretem o risco de modificações profundas.
Meu amigo, o historiador Ilmar Rohloff de
Mattos,2 no livro O Tempo Saquarema, analisou
a formação do Estado brasileiro ao longo
do século XIX, sobretudo durante o Segundo
Império, e mostrou como os conservadores
conseguiram imprimir às mudanças sociais tornadas
imprescindíveis (e sempre realizadas sob
a hegemonia das classes dominantes) um ritmo
lento, seguro e gradual, que serviu para
preservar a força da continuidade e limitar ou
mesmo evitar rupturas.
A indústria cultural prosperou vertiginosamente
e envolveu um amplíssimo público consumidor.
Vieram os cinemas, o rádio, os aparelhos
de som, a televisão, os computadores. As
escolas públicas se multiplicaram, passaram por
um processo de valorização e, em seguida, passaram
a sofrer um processo de sucateamento.
Alterou-se a própria relação da maioria da
população com a arte.
Novas modas surgiram e se foram, sem deixar
traços significativos. A desqualificação do
trabalho, que se expressa pela baixa remuneração,
facilitou o crescimento da jogatina: cada
vez tem mais gente jogando no bicho, na quina,
na sena, na loteca, no bingo, nos cavalos, no
carteado. Os hábitos, as fantasias, os desejos se
modificam. Essas alterações, contudo, não se
ligam a transformações aprofundadas na estrutura
da sociedade.
Isso é facilmente perceptível no plano da
estética. Até recentemente, as grandes obras de
arte exigiam dos que se aproximavam delas que
enfrentassem o desafio de digerir, laboriosamente,
experiências humanas ricas e densas.
Essa exigência agora vem sendo questionada.
Apesar da resistência de algumas pessoas, vem
prevalecendo a concepção de que a produção
artística é uma produção de mercadorias semelhantes
a quaisquer outras.
A perseguição ao lucro imediato tende a se
impor aos produtores, em geral; e esse fenômeno,
de certo modo, reedita o “espírito imediatista”
que imperava na época colonial, quando
eram desprezadas quaisquer preocupações
estratégicas relativas ao futuro, porque só contavam
as vantagens imediatas.
Vultuosos investimentos são feitos para, fazendo-
lhes concessões, manipular os consumidores.
Um bombardeio de marketing e chuva
forte de merchandising induzem os indivíduos
a se acreditarem muito diferentes uns dos
outros e, no entanto, levam-nos muitas vezes a
se tornarem extremamente parecidos, até em
168 Revista Rio de Janeiro, n. 15, jan.-abr. 2005
Literatura e Cultura
seus sonhos, em suas fantasias. Até em seus
desejos. Os homens desejam as mesmas mulheres,
cujas imagens são exibidas pela TV, pelo
cinema, pela publicidade (e que eles não vêem
pessoalmente). E as mulheres desejam os mesmos
homens, que elas também não conseguem
muitas vezes ver pessoalmente (os Brad Pitt, os
Tom Cruise, os Keanu Reeves).
Com o ritmo acelerado de suas imagens, a TV
desenvolveu uma linguagem notavelmente poderosa
e atualmente se tornou o centro da vida cultural
da esmagadora maioria do nosso povo.
Devemos reconhecer que a TV nos proporciona,
em alguns momentos, boa informação,
diversão de qualidade, alguns ótimos filmes,
eficiente divulgação artística e científica,
trabalhos sérios. Na programação mais freqüente
das emissoras de maior sucesso, entretanto,
ela tem sido fértil em shows sensacionalistas
de violência, espetáculos de grossura
e burrice, amenidades inócuas, informações
truncadas ou sentimentalismo derramado. E
difunde no telespectador passivo o hábito (ou
o vício?) de consumir acriticamente produtos
culturais pré-digeridos.
Há, evidentemente, reações contra esse quadro.
Todos os dias podem ser detectados indícios
de que o espírito crítico e a criatividade não
morreram. A cultura brasileira vem dando mostras
de vitalidade, nas idéias, nos sons, nas imagens.
Temos tido belos filmes, músicas maravilhosas,
livros excelentes, magnífica arquitetura, talentos
múltiplos nas mais diversas áreas. Temos expressões
magníficas na nossa arte popular.
Poderíamos fazer um balanço muito animador
dessa resistência, desses sinais de que poderemos
vir a fazer uma história diferente.
Os objetivos dessas impressões fragmentárias,
contudo, é o de sublinhar os males da continuidade
perversa que tem caracterizado a história da
nossa sociedade e da nossa cultura o longo dos
últimos séculos. É impossível não enxergarmos a
persistência, no interior de todas as mudanças,
das colossais desigualdades sócio-econômicas,
das exclusões e marginalizações. É impossível não
percebermos a permanência de uma forte rejeição
à legitimação das diferenças, bem como a
inviabilização do aumento significativo da participação
democrática de todos os setores da sociedade
nas decisões políticas e na vida cultural.
A ideologia dominante – que, como dizia o
velho Marx, é sempre a ideologia das classes
dominantes – tem sido muito eficiente ao convencer
muita gente de que não há alternativa
par o capitalismo. Ela tem influenciado a vida
cultural dos brasileiros através de uma incitação
à aceitação da lógica do mercado. O que
importa, então, é vencer nesta sociedade, tal
como ela é, sem se entregar à fantasia delirante
de pretender transformá-la. É nesta sociedade
que o indivíduo precisa ser um vencedor, um
winner; e precisa evitar a qualquer custo ser
um derrotado, um perdedor, um looser.
As conseqüências dessa ideologia para
a cultura são muito ruins. Os valores ligados
à história da busca da verdade, da justiça
e da beleza não são renovados, reinventados:
são severamente danificados.
Revista Rio de Janeiro, n. 15, jan.-abr. 2005 169
Alguns problemas da cultura brasileira
A desmistificação do eterno resulta na adaptação
conformista ao reino do descartável. A referência
tradicional às obras-primas é abandonada em proveito
da consagração fugaz dos bestsellers. A consciência
e a honradez passam a ser vendidas, a ter
um preço. A crise dos valores éticos repercute negativamente
na vida cultural, criando confusão no
espírito dos produtores e difusores de cultura.
O panorama – fragmentário – aqui proposto
tem o objetivo de nos fazer refletir sobre problemas
que vem sendo criados na história da cultura
brasileira por uma estrutura social acentuadamente
conservadora. Um conservadorismo que pode
ser rude, brutal, repressivo, como também pode
ser sofisticado, sutil, liberal. Pode ter uma ação
contundente ou uma ação emoliente.
Estamos, assim, diante de um desafio muito
sério, que é o de enfrentar uma postura que
amadureceu e foi longamente elaborada no
passado nos chega extremamente fortalecida
no presente: um conservadorismo que pode se
encastelar nos bastiões da direita, pode vicejar
nos partidos centristas e pode também, sem
maiores dificuldades, se infiltrar em organizações
de centro-esquerda ou de esquerda. Um
conservadorismo que fala, com desenvoltura,
a linguagem do “progresso” e é muito competente
na arregimentação não só dos trouxas,
mas também de muitos espertos.
Apesar da eficiência que conseguiram ter,
os detentores do poder e da riqueza não se
sentem inteiramente seguros e nós ainda dispomos
de algumas possibilidades de incomodá-los.
De fato, eles não suportam reivindicações e
protestos populares, e se escandalizam com manifestações
de combatividade, tidas como atos
de desrespeito às autoridades (embora achem
natural que a massa do povo sofra passivamente
– com infinita paciência – todas as privações).
Se conseguissem impor silêncio aos que protestam,
os privilegiados achariam com certeza –
incorrendo, é claro, num grande engano – que
os de “baixo”, afinal, se conformaram com a
desgraça que lhes é imposta e estão resignados.
É típico da ideologia das classes dominantes
que elas tenham especial dificuldade para
entender certa sabedoria que coexiste com os
preconceitos e limitações na consciência das
classes subalternas. Os de “baixo” não são imunes
à ação deformadora da ideologia dominante,
porém neles – como ensinava Gramsci
– um certo “bom senso” pode sempre se desenvolver
a partir do “senso comum”.
Um bom exemplo de manifestação dessa sabedoria
dos de “baixo” pode ser visto numa historinha
de um personagem do poeta e dramaturgo
alemão Bertolt Brecht: o Sr. Keuner. Com
essa historinha, encerro hoje, aqui, a minha fala.3
O Sr. Keuner estava em casa quando sua
residência foi invadida por um gigante prepotente,
que lhe perguntou: “Queres servir-me?”.
O Sr. Keuner passou a preparar comida para o
invasor, fritou bolinhos de carne e queijo, cozinhou
doces cremosos, assou pães enormes.
Serviu-o durante dias, semanas, meses, até que
o gigante teve uma embolia e morreu. O Sr. Keuner
enrolou o cadáver do outro num tapete
velho, jogou-o no lixo e lhe respondeu: “Não”.

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